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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Outro trecho

"(...)Somente duas vezes ele teve de revirar toda sua rotina e entortar seu dia-a-dia como hoje são tortos seus óculos: a primeira foi quando conheceu a moça que o acompanharia sem excessos de intimidade até o dia em que ele resolveu voltar; a segunda aconteceu há poucos meses, quando ele ligou para o trabalho e sem nenhum tipo de exaltação explicou a seus chefes e colegas que não conseguiria mais continuar naquele lugar. Quando viu a mulher pela primeira vez, ele pensou que a vida numa cidade maior do que a sua natal poderia trazer belezas como aquela que lhe passava pela frente, graças a uma simples questão de probabilidade, já que na capital aumentavam as chances de ele encontrar belas mulheres. Foi uma alegria matemática, nascida de uma certeza probabilística: viu-a, beijou-a, levou-a para casa. O encontro de um homem e de uma mulher em uma rua movimentada, o encostar de línguas e de narizes em um café escuro, nada disso merece atenção dos milhões de habitantes desta capital, mas marcou para ele o germe do choro, da cara feia e dos ansiolíticos que ele engolia com pena de si mesmo.


Da segunda vez, o tema foi trágico. Na manhã chuvosa, ele acordou com a cara ensopada, a barba por fazer, os óculos estavam jogados no chão, entortados. A mulher estatelada ao seu lado não reagiu quando ele, ainda grogue, pegou o telefone e discou para o jornal: não vou trabalhar, não estou doente, minha mãe não morreu e não vou me matar, apenas não vou continuar me sufocando nessa cidade, o que inclui martirizar-me numa redação cheia de fumantes, e assim apresento minha demissão (..)"

As coisas vão tomando forma, e, para minha surpresa, elas tem unidade.

Pessoas que nasceram, como eu, no fim daquela década de 80, já estão por aí ganhando o mundo. Eu, o rei das potencialidades, ainda estou por aqui, atrás dos meus óculos de aros escuros.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um trecho




"(...) Para quem quase nunca tinha viajado para o exterior, seus conhecimentos de Paris à época eram bastante avançados. Flanava pelo Quartier Latin como outrora subia e descia os morros de Perdizes e inspirava os ares da França como um tuberculoso à procura da cura. Conforme os anos passaram e ele se tornava íntimo da cidade, algo mais ocorria ao caminhar pelas ruas daquele lugar: ele sentia como se a própria Paris lhe indicasse os caminhos que percorria na noite e na vida, e em cada esquina ele tinha uma história para contar aos descentes, quando eles visitassem Paris. Quando voltou, passou a repetir essas histórias para seus convivas, aumentando a antipatia com que ele envolvia sua própria figura. Nunca terminava um drink sem contar para alguém da vez em que se perdera, na madrugada, pelo 3e arrondissement ou de quando participou da coletiva com tal membro da Légion d'Honneur.

No Brasil, ele até tentou estabelecer uma versão tropical de sua vida parisiense. Tentou arranjar uma padaria que no mínimo emulasse sua boulangerie cotidiana, mas não conseguiu se satisfazer. Igualmente, não encontrou em toda a cidade uma única praça que lhe agradasse e fizesse as vezes do Bois de Bologne. Acima de tudo, tentou mais de uma vez, mas o Obelisco do Ibirapuera jamais chegaria aos pés da magnânima Torre Eiffel. Como conseqüência, sua vida cultural esmoreceu, as leituras rarearam e o jornal, que desde antes pouco lhe pagava, menos ainda passou a dar ao nosso homem.

O resultado disso já era esperado: o sujeito ensimesmou-se e se tornou ainda mais do que um chato: virou um ranzinza. (...)"

Trecho de um rascunho a ser publicado quando o texto - e eu mesmo - estiver pronto. 

As coisas se constroem lentamente, tanto na vida quanto na literatura.

sábado, 30 de abril de 2011

pongate!

-Pongate a escrivir!

O velho de óculos escuros falou comigo em espanhol? Já tinha acontecido tanta coisa estranha naquela sala: a secretária sensualizara comigo roçando seu salto na minha perna debaixo da mesa, uma criança entrara correndo pelo corredor e vomitara na pilha de revistas da semana passada, a mãe dessa criança se materializara do além e deu-lhe uma surra na frente de todos nós, e agora, de repente, um velho que a tudo assistira, como eu, vira-se para mim, aponta-me o dedo e grita comigo em espanhol.

Lembrei na hora de Vargas Llosa: ponha-se a escrever seus romances. Que conselho de ouro, resume toda a ópera bufa da vida de um escritor. Mas mesmo assim, o velho da sala não era Vargas Llosa, nem sabia ele, acho eu, das minhas aspirações, de modo que aquele berro foi tudo, menos edificante.

Tenho meu orgulho, e, como todo ser humano, quando ele é ferido torno-me arisco, irônico, não sou uma pessoa fácil. Não fui educado, portanto, e fingi ignorar o velho. Fingi, é claro, porque não se ignora uma pessoa gritando para você. Acho que ele ficou puto, mas gente velha fica puta com tanta facilidade... Mesmo assim ele continuou, pongate, pongate, pongate, mas foi como um eco de si mesmo que nunca recebeu apoio de meus ouvidos.

Eu olhava para a parede branca da minha frente e assim permaneci durante o monólogo do outro. Por fim, aquela voz um tanto trêmula e repetitiva virou algo como minha própria consciência externalizada, como que me lembrando de que eu preciso escrever, escrever, escrever. Todo aquele tempo inutilizado numa sala de espera, cada segundo passado um segundo jogado no lixo e um velho me lembrando do dever: ponha-se a escrever!

sábado, 25 de dezembro de 2010

Maria Rosa

Seu nome é o mais pobre de todos: mistura Maria, que de tanto usado já não tem sentido, e Rosa, que virou sinônimo de flor para nossas cabeças tão urbanizadas. Qual a beleza disso? Além de composto e curto, seu nome é feio. Eu não te amo, Maria Rosa.

Rosa, uma cor que, com outro nome, teria o mesmo tom morto como a sua face, vazia de expressão. Olhe só para você mesma: não se move, não respira nem me sussura belas palavras. Seus dedos já não se entrelaçam no meu cabelo, nem massageiam meus ombros depois de um dia inteiro de amor. E pensando bem, seus olhos sempre foram assim meio ocos, meio zombeteiros. Você me via ou via através de mim? Era a mim que jurava amor, ou a outro às minhas costas, em quem você deitava seu olhar inexpressivo enquanto eu te abraçava sem força? Maria Rosa, meu primeiro amor, se antes sua língua tremia com todo o fel que pode haver neste mundo, hoje suas palavras soam como ecos de sabedoria de uma vida passada, de uma existência finda. Não te ouço porque nos distanciamos: eu, um não-amador, fico sem a não-amada. E você, que se dane nessa sua cama solitária.

Tinha aquela toalha de mesa, lembra?, um pano marrom, meio cinza, que escurecia o desjejum como o café que se mistura à claridade leitosa da manhã. Sua cadeira, do outro lado da mesa, ficava sempre vazia, e é por isso que não vai me fazer falta a sua ausência matinal. O pão era repartido, as guarnições fartas e até mesmo o leito era resfriado, tudo contado para dois, tudo miseravelmente resplandecente sobre um borrão de tristeza velho e marrom, como se fosse um objetivo vindo dos seus sonhos envoltos em lençóis brancos. Agora você dorme como sempre dormiu, nos meus momentos de maior solidão: seus olhos sempre fechados, sua boca sempre quieta, sua mãos, imóveis. E seus pés que se enrolavam na roupa de cama a cada espreguiçada agora caem sobre o pano branco que te levará para onde colocarem seu corpo. Maria Rosa, quanto tempo da sua vida você não perdeu na cama, enquanto o sol a pino já acabava com a manhã!

Agora é tarde, Maria Rosa, para se levantar. Seus olhos não vão se abrir porque seu sono tem agora outro berço, e a rigidez com que suas mãos pairam sobre seu peito não mais indicam a serenidade de uma noite bem descansada. Acabou, você perdeu a sua chance de se sentar comigo à mesa, de compartir do pão e da manteiga, do café e da prataria.

Eu não te amo, Maria Rosa, mas como eu queria que você tivesse levantado mais cedo pelo menos uma vez!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Naquela época

Naquela época, estudava Direito, no Largo São Francisco, resignado a ser um profissional liberal, apesar de, no fundo, já querer ser um escritor. O ônibus todo dia o levava de casa até o centro da cidade, em meio aos mendigos, aos automóveis e à falta de educação. As manhãs eram cinzentas como sempre foram naqueles tempos, os jornais não traziam boas notícias, as pessoas adoeciam e se encolerizavam. Mesmo assim, ele era confiante. Pensava no futuro, o passado ainda não havia, o presente até que tinha suas vantagens, e a paisagem lhe inspirava sofisticados devaneios, mesmo sendo um cemitério de edifícios como aquela São Paulo do começo do século.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Um pensamento alheio



Apesar de serem todos iguais, ele achava mais bonito o pôr do sol que via de sua janela do que esse de agora, banhado pelo mar e ao som de passarinhos. É engraçado, pensava, a cidade não é bela, e crepúsculos não têm nada demais, mas quando o céu pintava os prédios com aquele púrpura diáfano, quando o vidro da janela espelhava aquela cor que lentamente se transformava em noite, era mais bonito do que essa bola gigante que desce no horizonte e leva consigo toda a claridade do mundo. Não reparava no espetáculo com freqüencia, e nunca houve um momento em que ele parou de contar moedas para ver tudo aquela banalidade lá de seu apartamento, aos lados outros cubículos como o seu, abaixo e em cima mais pessoas não olhavam através das janelas, à sua frente uma fileira de vidraças de outro prédio que começam laranjas, vão ficando rosa, murcham roxamente e só continuam lá por causa da eletricidade dos postes, no térreo.

Aqui, qual a graça? As cores são as mesmíssimas, as árvores não se vêem mais muito bem, o vento incomoda, está ficando um pouco frio aqui do lado de fora, e ainda o por do sol era exatamente igual a todos os outros que ele já vira. Não, ele não se impressiona com essas coisas, e viveu sempre muito bem assim.

Fonte da foto nesse Flickr

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Esboço de prólogo do monólogo?



Não esperem os senhores por grandes verdades universais: aquilo que é produto das horas de descanso jamais atingirá as glórias da imortalidade. As páginas que seguem a este texto introdutório relatam casos e fatos de uma vida anônima e observadora – como todas as vidas devem ser.  Nelas há paciência, não aventuras. Há jardins, nenhuma floresta. Tudo nestas memórias tem o cheiro das rosas que eu mesmo plantei e cultivei durante anos nos canteiros da minha rua. Existe também – os poucos leitores talvez não o percebam – a transparência do orvalho que insiste em molhar as pétalas de todas as flores, minhas ou não, apesar do calor que torra nossas cabeças. Pois em meio a essa lucidez cristalina é que cresceram as idéias que permeiam essas linhas. O Livro do interior? Nome pomposo e incerto demais para as minhas pouco compromissadas digressões de fim de tarde. Eu diria que é o Livro da Rua Ondina. Mesmo assim, os conhecedores dessa cidade distante sabem que a rua que vai da rodoviária à rodovia nada se parece com a minha quadra. Este é, então, o Livro de João. Nada bíblico, entretanto.

Este livro, que leva meu nome, foi gestado aos poucos, no compasso de uma velhice sozinha mas auto-suficiente. Ele cresceu conforme encurtavam meus passos e me serve de bengala, o que não quer dizer que ele possa se sustentar sozinho. Como tantos outros textos antes dele, corria o risco de ser um natimorto, abandonado antes mesmo que qualquer pessoa lhe pusesse os olhos em cima. Seus antecessores hoje ocupam o interior de umas pastas azuis guardadas em cima de meu armário, mas estas memórias que aqui vão redigidas sintetizam todas as outras, ficcionais ou não. As pastas azuis não estão reviradas nem dispensadas da vida útil como pode sugerir o quadro pintado em tons pastéis de quatro ou cinco arquivos em cima de um guarda-roupa, com a fraca luz do fim tarde iluminando parte dela, à frente de uma parede escura pouco nítida. O artista que o pintou, além de terríveis técnica e dom, não soube entender o que via. Quis – pobre dele! – retratar a velhice, a solidão, a perecibilidade das palavras escritas, mas nunca lidas. O que ele via não eram resquícios da minha velhice medíocre: eram apenas papéis, muito bem organizados por data, os mais velhos embaixo dos mais novos, pouco consultados, admito, mas expostos a mim mesmo como um cemitério de idéias com grandes e chamativas lápides.