"Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar..."
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Outro trecho
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Um trecho
"(...) Para quem quase nunca tinha viajado para o exterior, seus conhecimentos de Paris à época eram bastante avançados. Flanava pelo Quartier Latin como outrora subia e descia os morros de Perdizes e inspirava os ares da França como um tuberculoso à procura da cura. Conforme os anos passaram e ele se tornava íntimo da cidade, algo mais ocorria ao caminhar pelas ruas daquele lugar: ele sentia como se a própria Paris lhe indicasse os caminhos que percorria na noite e na vida, e em cada esquina ele tinha uma história para contar aos descentes, quando eles visitassem Paris. Quando voltou, passou a repetir essas histórias para seus convivas, aumentando a antipatia com que ele envolvia sua própria figura. Nunca terminava um drink sem contar para alguém da vez em que se perdera, na madrugada, pelo 3e arrondissement ou de quando participou da coletiva com tal membro da Légion d'Honneur.
sábado, 30 de abril de 2011
pongate!
O velho de óculos escuros falou comigo em espanhol? Já tinha acontecido tanta coisa estranha naquela sala: a secretária sensualizara comigo roçando seu salto na minha perna debaixo da mesa, uma criança entrara correndo pelo corredor e vomitara na pilha de revistas da semana passada, a mãe dessa criança se materializara do além e deu-lhe uma surra na frente de todos nós, e agora, de repente, um velho que a tudo assistira, como eu, vira-se para mim, aponta-me o dedo e grita comigo em espanhol.
Lembrei na hora de Vargas Llosa: ponha-se a escrever seus romances. Que conselho de ouro, resume toda a ópera bufa da vida de um escritor. Mas mesmo assim, o velho da sala não era Vargas Llosa, nem sabia ele, acho eu, das minhas aspirações, de modo que aquele berro foi tudo, menos edificante.
Tenho meu orgulho, e, como todo ser humano, quando ele é ferido torno-me arisco, irônico, não sou uma pessoa fácil. Não fui educado, portanto, e fingi ignorar o velho. Fingi, é claro, porque não se ignora uma pessoa gritando para você. Acho que ele ficou puto, mas gente velha fica puta com tanta facilidade... Mesmo assim ele continuou, pongate, pongate, pongate, mas foi como um eco de si mesmo que nunca recebeu apoio de meus ouvidos.
Eu olhava para a parede branca da minha frente e assim permaneci durante o monólogo do outro. Por fim, aquela voz um tanto trêmula e repetitiva virou algo como minha própria consciência externalizada, como que me lembrando de que eu preciso escrever, escrever, escrever. Todo aquele tempo inutilizado numa sala de espera, cada segundo passado um segundo jogado no lixo e um velho me lembrando do dever: ponha-se a escrever!
sábado, 25 de dezembro de 2010
Maria Rosa
Seu nome é o mais pobre de todos: mistura Maria, que de tanto usado já não tem sentido, e Rosa, que virou sinônimo de flor para nossas cabeças tão urbanizadas. Qual a beleza disso? Além de composto e curto, seu nome é feio. Eu não te amo, Maria Rosa.
Rosa, uma cor que, com outro nome, teria o mesmo tom morto como a sua face, vazia de expressão. Olhe só para você mesma: não se move, não respira nem me sussura belas palavras. Seus dedos já não se entrelaçam no meu cabelo, nem massageiam meus ombros depois de um dia inteiro de amor. E pensando bem, seus olhos sempre foram assim meio ocos, meio zombeteiros. Você me via ou via através de mim? Era a mim que jurava amor, ou a outro às minhas costas, em quem você deitava seu olhar inexpressivo enquanto eu te abraçava sem força? Maria Rosa, meu primeiro amor, se antes sua língua tremia com todo o fel que pode haver neste mundo, hoje suas palavras soam como ecos de sabedoria de uma vida passada, de uma existência finda. Não te ouço porque nos distanciamos: eu, um não-amador, fico sem a não-amada. E você, que se dane nessa sua cama solitária.
Tinha aquela toalha de mesa, lembra?, um pano marrom, meio cinza, que escurecia o desjejum como o café que se mistura à claridade leitosa da manhã. Sua cadeira, do outro lado da mesa, ficava sempre vazia, e é por isso que não vai me fazer falta a sua ausência matinal. O pão era repartido, as guarnições fartas e até mesmo o leito era resfriado, tudo contado para dois, tudo miseravelmente resplandecente sobre um borrão de tristeza velho e marrom, como se fosse um objetivo vindo dos seus sonhos envoltos em lençóis brancos. Agora você dorme como sempre dormiu, nos meus momentos de maior solidão: seus olhos sempre fechados, sua boca sempre quieta, sua mãos, imóveis. E seus pés que se enrolavam na roupa de cama a cada espreguiçada agora caem sobre o pano branco que te levará para onde colocarem seu corpo. Maria Rosa, quanto tempo da sua vida você não perdeu na cama, enquanto o sol a pino já acabava com a manhã!
Agora é tarde, Maria Rosa, para se levantar. Seus olhos não vão se abrir porque seu sono tem agora outro berço, e a rigidez com que suas mãos pairam sobre seu peito não mais indicam a serenidade de uma noite bem descansada. Acabou, você perdeu a sua chance de se sentar comigo à mesa, de compartir do pão e da manteiga, do café e da prataria.
Eu não te amo, Maria Rosa, mas como eu queria que você tivesse levantado mais cedo pelo menos uma vez!
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Naquela época
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Um pensamento alheio
Fonte da foto nesse Flickr
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Esboço de prólogo do monólogo?
Não esperem os senhores por grandes verdades universais: aquilo que é produto das horas de descanso jamais atingirá as glórias da imortalidade. As páginas que seguem a este texto introdutório relatam casos e fatos de uma vida anônima e observadora – como todas as vidas devem ser. Nelas há paciência, não aventuras. Há jardins, nenhuma floresta. Tudo nestas memórias tem o cheiro das rosas que eu mesmo plantei e cultivei durante anos nos canteiros da minha rua. Existe também – os poucos leitores talvez não o percebam – a transparência do orvalho que insiste em molhar as pétalas de todas as flores, minhas ou não, apesar do calor que torra nossas cabeças. Pois em meio a essa lucidez cristalina é que cresceram as idéias que permeiam essas linhas. O Livro do interior? Nome pomposo e incerto demais para as minhas pouco compromissadas digressões de fim de tarde. Eu diria que é o Livro da Rua Ondina. Mesmo assim, os conhecedores dessa cidade distante sabem que a rua que vai da rodoviária à rodovia nada se parece com a minha quadra. Este é, então, o Livro de João. Nada bíblico, entretanto.

