O que esperar de um filme que fez estardalhaço ao ser lançado, que foi dirigido por um diretor conhecido, que tem um elenco global e que, ainda por cima, trata de dois temas dos mais espinhosos no nossa modernidade que são o incesto e a homossexualidade? Conflito, muito conflito. Entretanto, contrariando todas as expectativas, nada disso encontra o espectador de Do começo ao fim, filme brasileiro de 2009 que eu só vi semana passada, numa sessão especial aqui em Rio Preto.
O enredo é facilmente divido em duas partes: uma antes e outra depois da morte da mãe dos irmãos protagonistas. A mãe, Júlia Lemmertz, é talvez a melhor personagem de todo o filme porque é a única a sofrer, a se questionar e a investigar com seu olhar a convivência de seus dois filhos, antevendo o futuro relacionamento amoroso entre eles. Ela começa a estranhar as carícias e as brincadeira dos irmãos, e nesse estranhamento reside o ponto alto do filme, que é a atuação silenciosa da mãe perante uma situação que é das mais perturbadoras para nossa cultura. Enquanto as filhos pequenos se beijam na bochecha e brincam de médico, vemos a mãe chorar olhando pela janela e ouvir conselhos do ex-marido, e em nenhum momento a questão do incesto é escancarada. Ela não comenta nem briga com ninguém, mas sua imagem deteriora-se, fumando cigarro e sentada à mesa no jardim da casa em que mora. Só uma vez tem-se um diálogo que vale a pena no filme, dela com o filho mais velho, que começa com a velha e enigmática frase "não tem nada que você queira me contar?" e que termina tao inconclusivo como começou. Ficamos sem saber o motivo de se sofrimento, não sabemos sequer se era por causa da homossexulidade, do incesto ou dos dois.
A partir desse momento, o filme degringola. Afastam-se todas as fontes de conflito que poderiam preocupar os protagonistas: anos depois, a mãe morre, assim como o pai do mais velho e o pai do mais novo muda-se de casa. Os irmãos já estão mais velhos, envolvidos amorosa e fogosamente, e vivem num mundo aparte, num idílio impensável para um casal incestuoso. São felizes, ricos, bonitos e jovens, não tem muito contato com o resto do mundo nem passam por nenhum questionamento sobre sua condição. Dessa forma, Do começo ao fim criou dois personagens estranhíssimos: são homossexuais mas não passaram por nenhum momento de repressão; têm um relacionamento incestuoso mas não entram em conflito com o mundo à sua volta. A grande questão proposta para o futuro do relacionamento dos dois é a viagem do mais novo à Rússia para treinar natação. A distância provoca crises de ciúmes e saudades, sanadas com um chorinho e juras de amor eterno; e o filme termina com a visita do mais velho ao irmão em Moscou, com um abraço e um beijo digno da novela das oito.
Se é verdade que de tudo fica um pouco, como diria Drummond, de Do começo ao fim fica muito pouco. Talvez só a constatação universal, nossa velha conhecida, de que a mãe sempre sabe...